Piso histórico soterrado vira mistério no Palácio do Catete, no Rio

Crianças uniformizadas de azul se sentam na grama com pranchetas debaixo de enormes palmeiras. Com a orientação de uma professora, elas desenham o cenário: um jardim tropical de um palácio, com lagos, chafariz e um enorme coreto. Idosos caminham e casais passeiam de mãos dadas no parque. A poucos metros dali, outros desenhos intrigam uma arqueóloga, uma museóloga e uma arquiteta: ladrilhos hidráulicos com mais de 150 anos, pintados à mão na Inglaterra pelo mais nobre fabricante de pisos vitorianos emergiram de um buraco cavado para a passagem de tubulações de esgoto. Não há registro desses ladrilhos em nenhuma planta daquele palácio, mesmo que ele já tenha sido o centro do poder no Brasil, como a sede da Presidência da República e residência oficial de presidentes por mais de meio século. “Tem muita camada de história nesse lugar”, disse a museóloga Isabel Portella, figurativamente. “Um período vai suplantando um outro, e, além de a gente ter a história que aconteceu aqui dentro, abaixo também tem muita história. Camadas de história para cima, e outras camadas históricas para baixo”. Sonho de JK Isabel é servidora do Museu da República, criado no Palácio do Catete depois que a capital do Brasil foi transferida do Rio de Janeiro para Brasília em 1960. Enquanto planejava a mudança, era nesse palácio que o ex-presidente Juscelino Kubitschek (JK) sonhava com a capital do futuro. Antes disso, Getúlio Vargas morou e governou o país do palácio durante seu governo e também terminou nele sua vida, ao se suicidar no dia 24 de agosto de 1954, aos 72 anos. Também foi desse palácio que Venceslau Brás declarou guerra à Alemanha em 1917, já no fim da Primeira Guerra Mundial, depois que a Marinha Imperial Alemã afundou navios mercantes brasileiros. Diante de tanta história documentada, nenhum registro dá qualquer pista de qual possa ser a origem dos ladrilhos hidráulicos encontrados um dia antes do carnaval de 2023, no dia 16 de fevereiro. Isabel Portella é especialista no assunto, tendo mapeado todas as 47 padronagens de ladrilhos que existem no Palácio do Catete. Ela pode garantir que a descoberta tem a mesma qualidade que os pisos usados no hall de entrada e em outras áreas do museu, importados da Inglaterra na época da construção, entre 1858 e 1867. Chefe do núcleo de arquitetura e diretora substituta do Museu da República, Ana Cecilia Lima Santana contou que a presença de descobertas arqueológicas nos subterrâneos do Museu da República na verdade não é tão surpreendente. Mas algo da dimensão do que foi achado dessa vez deixou todos os especialistas da casa sem respostas. Escavações “A gente sabe que, nos jardins do palácio, a gente pode encontrar qualquer coisa nas escavações. Por isso, sempre tem que ter um arqueólogo junto em qualquer interferência que se faça, para qualquer mínima passagem de tubulação. É um jardim histórico que passou por muitas modificações. A gente só não imaginou que ia encontrar algo desse tamanho”, afirmou. “A gente não tem nenhum relato do que pode ter sido isso. As plantas mais antigas que não mostram nada construído aqui. Os documentos mais antigos não mostram nada nessa área”, acrescentou. As escavações feitas no jardim para a passagem das novas tubulações de esgoto já haviam se deparado com pedaços de louça, vidro e cerâmicas, mas todos minúsculos, contou a arqueóloga Beth Modesti Simões, que foi quem encontrou o ladrilho cavando com uma picareta. “Percebi que tinha alguma coisa e disse: espera aí, vamos devagar”, lembrou ela. “Quando achei esse ladrilho, reparei a qualidade. Ele tem as iniciais do fabricante, então, não temos dúvidas que é Minton. Esse fabricante era renomadíssimo, ele fez um restauro na Catedral de Westminster [no Reino Unido]”, disse Beth. A catedral em questão é famosa pelos casamentos, coroações e funerais da família real britânica. Beth agora trabalha na confirmação do que foi encontrado, escavando mais para descobrir qual é a dimensão real da área ladrilhada, já que apenas pouco mais de um metro já foi revelado. Depois que toda a área for aberta, ainda faltará a resposta sobre qual estrutura havia recebido um ladrilho tão nobre no meio do jardim. “É um trabalho de arqueologia histórica, em que você cruza os artefatos que você encontrou, a cultura material dessa época, com os documentos que você descobre em arquivos e plantas”, detalhou ela, que trabalha no Instituto de Arqueologia Brasileira, acompanhada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). As três pesquisadoras têm suas próprias especulações. Elas vão desde testes feitos para mostrar as padronagens ao antigo dono do casarão até a possibilidade de um pórtico, com uma entrada alternativa para o jardim, que já foi ampliado diversas vezes. Há ainda relatos pouco esclarecedores de que pode ter havido ali uma casa construída para a sogra do Barão de Nova Friburgo, o responsável por construir aquele palácio luxuoso com um jardim que terminava na areia da praia.. Nobreza escravocrata Mas como um casarão tão suntuoso a ponto de ser um palácio presidencial foi construído para ser a residência de uma família nobre no século 19? Entre ladrilhos hidráulicos ingleses, vitrais alemães e colunas de mármore, o luxo e o requinte da residência exemplificam o poder econômico da elite cafeicultora e escravista, da qual o Barão de Nova Friburgo, Antônio Clemente Pinto, era um destacado representante.. Barão e Baronesa de Nova Friburgo ao lado de maquete do Palácio do Catete, em retrato em óleo sobre tela de Emil Bausch (1867) – Arquivo “Ele construiu a maior parte da fortuna dele com o tráfico de pessoas escravizadas”, definiu a arqueóloga Beth Modesti. “Era uma atividade que gerava uma fortuna enorme para todos eles”. Um estudo publicado na Revista Maracanan, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pelo historiador Rodrigo Marins Marretto, contabiliza que, em apenas quatro anos, de 1827 a 1830, o Barão de Nova Friburgo foi responsável pela vinda forçada de mais de 3,3 mil pessoas escravizadas da África para o Brasil, em oito viagens. Os principais portos em que o barão comprou pessoas escravizadas foram Quilimane, Cabinda,

Ibaneis: documento achado na casa de Torres revela intenção de golpe

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, disse hoje (16) que o rascunho de um eventual decreto presidencial apreendido na casa do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro, Anderson Torres, revela que “alguém” chegou a planejar um golpe de Estado. “Independentemente de não ter a assinatura de ninguém, o documento revela que, em algum momento, alguém pensou em dar um golpe no Brasil. Revela que havia na cabeça de alguém a intenção de dar um golpe [de Estado]”, declarou Ibaneis em sua primeira coletiva de imprensa depois que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes o autorizou a reassumir o cargo. O governador passou 64 dias afastado do comando do Poder Executivo distrital. O afastamento foi determinado por Moraes após o dia 8 de janeiro, quando vândalos e golpistas invadiram e depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o prédio da Suprema Corte. Inicialmente, Moraes determinou que Ibaneis permanecesse 90 dias afastado do governo do Distrito Federal para não atrapalhar as investigações sobre as responsabilidades das autoridades públicas quanto aos atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Apesar disso, ontem (15), o próprio Moraes autorizou Ibaneis a reassumir o cargo. Já o ex-ministro Anderson Torres, que assumiu a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal no dia 2 de janeiro, está preso desde o dia 14 de janeiro. Sua detenção também foi autorizada por Moraes, a pedido da Polícia Federal (PF), que o acusou de, já na condição de secretário distrital, ter sido omisso e facilitado os atos antidemocráticos de 8 de janeiro. A minuta do decreto citada por Ibaneis foi encontrada na casa de Torres, por policiais federais que cumpriam um mandado de busca e apreensão. Se colocada em prática, a medida possibilitaria que o resultado das últimas eleições presidenciais fosse invalidado. Em depoimento, Torres desqualificou o documento, dizendo que seu teor não tem “viabilidade jurídica”. Ele também assegurou à PF que não sabe quem redigiu o texto, que recebeu quando ministro da Justiça. “O Anderson Torres foi meu secretário de Segurança entre 2019 e 2021. É uma pessoa que goza da minha confiança. Gozava. E quando o [ex-]presidente Bolsonaro perdeu a eleição, entendi que ele seria uma boa pessoa para voltar para o governo do Distrito Federal”, disse Ibaneis, explicando o motivo de ter convidado Torres para reassumir a Secretaria de Segurança Pública após a fim da gestão Bolsonaro. “Agora, o que aconteceu no 8 de janeiro é uma coisa imprevisível. Até o dia 6 de janeiro, não tínhamos nenhuma perspectiva de que ia acontecer aquilo. Os ônibus começaram a chegar ao DF nos dias 6 e 7 [de janeiro]. Tivemos aquele problema todo, mas, na minha visão, não foi culpa do Anderson. Acho que foi um conjunto”, acrescentou o governador, minimizando a responsabilidade do então secretário distrital de Segurança que, na véspera dos ataque aos prédios públicos, viajou para os Estados Unidos, de férias. Embora estivesse à frente da pasta havia apenas cinco dias, Torres já tinham feito uma série de mudanças nos postos de comando da segurança pública. Apesar disso, para Ibaneis, o que houve naquele dia em que milhares de pessoas avançaram sobre os prédios públicos diante de um número insuficiente de agentes públicos foi um “apagão geral” que acometeu inclusive tropas sob o comando do governo federal.

Receita recebe mais de 1 milhão de declarações do IR no primeiro dia

Número de envios bate recorde após mudança de prazo Após a mudança de prazo que vigora a partir deste ano, o número de declarações do Imposto de Renda Pessoa Física entregues bateu recorde no primeiro dia. Até as 17h desta quarta-feira (15) foram enviadas 1.050.023 declarações, o que equivale a quase dez vezes as 130.099 entregues no primeiro dia de envio em 2022. Neste ano, o prazo de entrega da declaração mudou. Começou às 9h desta quarta-feira (15) e vai até as 23h59min59s de 31 de maio. A mudança, segunda a Receita, foi necessária para que todos os contribuintes tenham acesso à declaração pré-preenchida, que é enviada duas semanas após a entrega dos informes de rendimentos pelos empregadores, pelos planos de saúde e pelas instituições financeiras. Antigamente, o prazo de entrega da declaração começava no primeiro dia útil de março e ia até o último dia útil de abril. Com o início mais tardio a partir deste ano, mais contribuintes ganharam tempo para entregar a declaração no primeiro dia. Outro fator que impulsionou o recorde foi a antecipação do download do programa gerador da declaração. Inicialmente previsto para ser liberado nesta quarta-feira (15), o programa teve a liberação antecipada para quinta-feira passada (9). Segundo a Receita Federal, a expectativa é que sejam recebidas entre 38,5 milhões e 39,5 milhões de declarações neste ano, número superior ao recorde registrado em 2022, quando o Fisco recebeu 36.322.912 documentos. Quem enviar a declaração depois do prazo pagará multa de R$ 165,74 ou 20% do imposto devido, prevalecendo o maior valor.   Novidades A declaração deste ano tem novidades relativas à restituição. Quem optar por receber a restituição por Pix ou usar a declaração pré-preenchida receberá o valor mais rapidamente, sempre respeitando as prioridades legais. Quanto ao Pix, no entanto, a novidade só vale para quem declarar a chave do tipo Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) no campo de pagamento da restituição. Outra mudança importante é a ampliação dos dados disponíveis na declaração pré-preenchida. No ano passado, o acesso havia sido estendido a quem tem conta nível prata ou ouro no Portal Gov.br. Agora, o formulário, que proporciona mais comodidade e reduz as chances de erros pelo contribuinte, terá mais informações, como imóveis registrados em cartório e criptoativos. Também houve uma novidade em relação a quem tem investimentos na bolsa de valores. A Receita flexibilizou a obrigatoriedade da declaração para este público. Só quem fez vendas de grande valor ou obteve lucro (de qualquer valor) nessas aplicações deverá preencher a declaração. Edição: Nádia Franco/AB

Estudante obtém nota máxima na redação do Enem, sem acesso à internet nem curso pré-vestibular

Rilary Manoela Coutinho, uma estudante de 18 anos de Itapiranga, um município do interior do Amazonas, alcançou a pontuação máxima na redação do Enem, mesmo sem acesso à internet em casa ou a um curso pré-vestibular. Rilary, que sonha em cursar Engenharia Civil na Universidade Federal do Amazonas, sabe que sua situação financeira a impede de estudar longe de casa. Ela mora com a avó e o irmão mais velho, que teve que trancar o curso de Engenharia de Software na universidade pública por falta de recursos. Embora a estudante tenha sido aprovada em Engenharia de Materiais na Universidade do Estado do Amazonas, ela não pôde se matricular porque a viagem para o local custaria R$ 78, o que comprometeria o orçamento familiar.

Bombeiros resgatam duas vítimas de afogamento neste domingo (19) de carnaval

O Corpo de Bombeiros de Goiás resgatou duas vítimas de afogamento neste domingo (19) de carnaval em Goiás. Um dos casos ocorreu em Cavalcante, na região da Chapada dos Veadeiros, e outro em Abadiânia, município a cerca de 100 km de Goiânia. Equipes dos bombeiros foram acionadas na manhã deste domingo para atender uma vítima de afogamento no rio Paranã em Cavalcante. Uma equipe se deslocou até o local, e conseguiu localizar a vítima submersa, já sem vida. Os bombeiros deram o suporte operacional às pessoas envolvidas e aguardaram a chegada da Polícia Técnico Científica para transferir a responsabilidade do corpo.

Projeto prevê monitoramento de agressor por vítima de violência doméstica

Tramita na Câmara Federal um projeto que permite a mulher vítima de violência doméstica o acesso à localização do agressor. O texto que altera a Lei Maria da Penha servirá para que o autor de agressão possa ser monitorado eletronicamente. Segundo o texto do deputado Marx Beltrão (PP-AL), o juiz poderá conceder este acesso para garantir que as medidas protetivas de urgência sejam efetivas. “Quando o juiz determina que o agressor não se aproxime da mulher, nem sempre há condições de verificar o cumprimento dessa medida”, aponta o autor. Ainda segundo ele, com essa possibilidade da vítima verificar a posição do agressor em tempo real, ela poderá se sentir mais segura. Além disso, em caso de aproximação, “acionar, antecipadamente, as forças de segurança pública para a sua proteção”.

Polícia investiga esteticista que usou crianças de biquíni em anúncio de bronzeamento

Uma esteticista de Manaus, no Amazonas, utilizou imagens de crianças de biquíni para divulgar, em suas redes sociais, seu trabalho de bronzeamento artificial. A Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca) do estado informou que a profissional foi notificada “a comparecer na unidade especializada, para fins de esclarecimentos” e “apuração dos fatos”. Após a repercussão do caso, a profissional, conhecida como Danny Bronze, publicou um vídeo em suas redes sociais no qual se defende das acusações. — Só para esclarecer a foto que está rolando no story e no meu feed, inclusive no meu feed eu até apaguei, sem a mãe das minhas sobrinhas saber. Mas, enfim, se você acha que é certo ou que não é certo, fique na sua. Não faz comentário nas minhas fotos, tá certo? Se tu gosta ou não gosta, o problema é seu, não é meu. Se eu coloquei é porque eu gostei. Cada um tem seu jeito de criar e fazer o que quer no seu Instagram — disse a esteticista em sua conta no Instagram. As registros circularam pelas redes sociais após uma blogueira local denunciar a publicação. Em seguida, a esteticista fechou a conta no Instagram, na qual tinha 12,7 mil seguidores e usava para divulgar seus trabalhos. — A gente vai investigar, sobretudo, a intenção dessa publicação, dessa divulgação. Se era para atrair clientes para o estúdio ou se era para expor mesmo aquelas crianças. A responsável legal pelas crianças também deve trazê-las para que elas possam passar por uma entrevista para que a gente possa saber a real intenção do que foi realizado nesse estúdio — disse a delegada Joyce Coelho, da Depca, responsável pelas investigações.

Saiba quem é a falsa vidente acusada de golpe milionário no Rio

As investigações da Delegacia Especial de Atendimento à Pessoa da Terceira Idade (Deapti) sobre um golpe de mais de R$ 724 milhões, em pagamentos e obras de artes, contra uma idosa, de 82 anos, identificaram que a responsável por abordar a vítima é Diana Rosa Aparecida Stanesco Vuletic. Ela ofereceu serviços espirituais para evitar que a filha da idosa morresse. Diana, que é considerada foragida, já havia sido presa por atuar como falsa vidente. Ela aplicava os golpes nas ruas de Copacabana, Ipanema e Leblon, na Zona Sul do Rio. Ela é investigada por cometer crimes como estelionato, extorsão, ameaça, falsidade ideológica, lesão corporal, injúria por preconceito e até maus-tratos, cárcere privado e estupro. De acordo com o inquérito da Deapti, em janeiro de 2020, após sair de uma agência bancária em Copacabana, a idosa foi abordada por Diana, que, apresentando-se como vidente, disse que sua filha, Sabine Coll Boghici, estava doente e morreria em breve. Ela conseguiu convencê-la a ir até seu apartamento, na Rua Barata Ribeiro, onde teria jogado búzios e confirmado o “evento trágico”. De lá, elas seguiram para o imóvel de outra vidente, no Leme, para a realização de trabalhos espirituais e a cura da filha. No apartamento, as golpistas perguntaram a idosa onde a filha morava e se possuía objetos de valor. Desconfiada, ela não respondeu. Segundo a idosa, Diana falou para ela procurar uma pessoa de confiança para salvar a vida de sua filha. Elas seguiram então para a casa de Rosa Stanesco Nicolau, conhecida como Mãe Valéria de Oxossi, na Rua Maria Quitéria, em Ipanema. Após jogar búzios e colocar cartas, a mulher novamente afirmou que a filha estaria com “espírito ruim”. Afirmou ainda que isso a levaria à morte. Em seguida, a falsa vidente pediu o pagamento pelo serviço. Ao questionar as videntes sobre os valores, a idosa recebeu como resposta que ela poderia pagar o que lhe fora cobrado. A vítima contou tudo para a filha, que orientou a mãe a providenciar imediatamente o pagamento para afastar o mal que a atingia. Acreditando nas previsões, sobretudo diante dos problemas psicológicos como depressão e síndrome do pânico que Sabine sofria, ela concordou em efetuar transferências de mais de R$ 5 milhões. Segundo as investigações, além de Diana e de Sabine, pelo menos mais cinco pessoas participaram do golpe aplicado contra a mulher. Como o jornal O Globo mostrou em abril, Diana Rosa Aparecida Stanesco Vuletic, de 37 anos, foi presa em flagrante, na Rua Joana Angélica, em Ipanema, por policiais da 13ª DP (Ipanema). Indiciada por extorquir dinheiro de uma dona de casa, de 24 anos, ela a teria atraído, após uma conversa, com a promessa de uma consulta gratuita em seu escritório, em um edifício na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no bairro vizinho. Durante o atendimento, porém, foram cobrados R$ 4.300 com o pretexto da realização de uma “cirurgia espiritual”. Segundo a vítima, era necessário um “trabalho” para desfazer o “ritual macabro” que teria sido praticado contra ela. Na delegacia, a vítima contou que para quebrar a “maldição” era preciso comprar ovos brancos, panos e velas. De volta à sala de Diana, a mulher teve que passar por um suposto ritual em que a criminosa teria identificado um “demônio” em seu corpo. Após isso, a estelionatária cobrou que fossem feitas transferências bancárias. No dia seguinte ao encontro, Diana novamente voltou a insistir pelo pagamento, dizendo que a vítima seria hospitalizada em seis meses caso não o fizesse o recomendando. Em um vídeo enviado por rede social, ela mostrava uma menina vomitando sangue por estar com “carga espiritual” e ameaçava a mulher que o mesmo iria acontecer a ela. — Os inquéritos mostram que esses criminosos, com promessas de reatar relacionamentos, oferecer promoções em empregos e até desfazer maldições espirituais, exigem dinheiro e chegam a ameaçar as vítimas. Realmente impressiona a frieza como as ludibriam para alcançar vantagens econômicas, demonstrando ganância e explorando crenças religiosas — disse o delegado Felipe Santoro, titular da 13ª DP, à época — Nossa orientação é no sentido de que todos fiquem atentos a essas abordagens e evitem se deslocar para endereços de desconhecidos, procurando referências seguras e não se deixando levar por postagens em redes sociais.

População LGBTQIA+ vê risco de estigma com surto de varíola dos macacos

Em 1981, a chegada de uma doença desconhecida, que afetava principalmente homens que tinham relações sexuais com outros homens, à Califórnia, nos Estados Unidos, deixava o mundo em alerta. Ali, o HIV, vírus causador da Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), iniciava aquela que seria a “epidemia da homofobia”, diz o infectologista Jamal Suleiman, do Instituto Emílio Ribas. A enfermidade chegou a ser chamada de câncer gay. De lá para cá, 40 milhões de pessoas morreram por doenças relacionadas à Aids –como tuberculose e hepatites virais–, segundo dados do Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids). No Brasil, cerca de 920 mil pessoas vivem com o vírus. O anúncio da OMS (Organização Mundial da Saúde), no último mês de julho, de classificar a varíola dos macacos como uma emergência pública de preocupação global já seria grave o bastante. No entanto, o acréscimo da informação de que mais de 95% dos casos —15.510 confirmados até aquele momento— se davam entre homens que se relacionavam com homens, além da recomendação para que essa população diminua seu contato sexual, reviveu o medo do estigma dos anos 1980. O gerente administrativo Pedro Martins, 25, vê com desconfiança as orientações da OMS e cobra que as mesmas também sejam destinadas à população heterossexual. Martins afirma que foi sempre cuidadoso e nada mudou em sua vida sexual. “Novamente, tratam uma doença como peste gay, como fizeram na década de 80. Por que só nós [homens LGBTQIA+] precisamos diminuir nossos parceiros sexuais? E as orientações para os héteros? Isso é um erro, todo mundo faz sexo”, diz. À reportagem, outros dois homens que declaram ter relações sexuais com outros homens compartilham da opinião sobre a doença estar sendo rotulada. Eles afirmam que continuam tendo vários parceiros, além de frequentar baladas e “darkrooms” (ambiente escuro onde frequentadores fazem sexo), mas têm conversado sobre a doença antes de se relacionarem. Ao contrário da Aids, a varíola dos macacos não é sexualmente transmissível. A sua principal forma de propagação é o contato pele a pele com as vesículas que o doente apresenta. Como no sexo o contato íntimo é mais recorrente, a transmissão é mais fácil de acontecer. Oficial para Comunidades, Gênero e Direitos Humanos do Unaids Brasil, Ariadne Ribeiro diz que a pandemia de Aids traz uma forte lição da importância de não estigmatizar pessoas ou grupos sociais pela vulnerabilidade que possam ter, inicialmente, a determinado surto epidêmico. “Quando os primeiros casos de Aids surgiram, havia ainda pouco conhecimento sobre sua forma de propagação, o que gerou uma abordagem equivocada voltada para os grupos de risco. Essa abordagem não apenas estigmatizou esses grupos, como passou a ilusão de que o restante da sociedade não seria afetada, uma mentira fácil de aceitar”, declara Ribeiro. A representante do Unaids ressalta que, no caso da varíola dos macacos, existe uma atenção para o risco de estigmatização, além de uma sociedade civil muito mobilizada para evitar que os mesmos equívocos do passado se repitam. Jamal Suleiman diz ver muitas semelhanças entre o tratamento dado, em seus primórdios, ao HIV e o hoje dado ao monkeypox, vírus causador da varíola dos macacos. “É fácil culpar os mais vulneráveis, um erro que não podemos permitir que se repita. O preço é muito alto para tirar esse estigma depois”, acrescenta o infectologista. Como o Unaids, ele afirma que apenas uma comunicação assertiva sobre prevenção pode funcionar no combate à doença. “O vírus não escolhe uma comunidade, ele escolhe comportamento. Não dá para tapar o sol com a peneira, temos que falar sobre e para quem, hoje, é mais vulnerável. Mas é importante ressaltar que comportamentos não podem ser criminalizados, ninguém é fiscal de moral. É uma questão de saúde, não de julgamento.” O médico do Instituto Emílio Ribas atendeu durante a epidemia de HIV/Aids e atualmente cuida de pacientes com varíola dos macacos. “É uma doença chata, dolorida e limitante.” Gay, o estudante Lucas Vasquez, 24, confia na maneira como o progresso da doença tem sido retratado e nas orientações da OMS. “Acho desproporcional a reação da comunidade LGBTQIA+. É como se fosse mentira que uma parte dela é inconsequente. Não se deve defender o direito à contaminação. Acredito que a OMS só queria entender como as coisas estão acontecendo”, diz Vasquez. Apesar disso, ele afirma que nada mudou em sua vida sexual, que considera moderada. Com o avanço da contaminação em todo o mundo, o Grindr, plataforma de paquera voltada à população LGBTQIA+ masculina, tem alertado seus usuários para os riscos do contato físico na propagação do monkeypox. Segundo o portal Our World in Data, da Universidade de Oxford, até a última sexta-feira (5), foram confirmados 27.562 casos de varíola dos macacos em 83 países, além de nove mortes. No Brasil, o Ministério da Saúde confirmou 1.369 casos até a última segunda-feira (1º). Cerca de 75% dos infectados estão em São Paulo, onde uma pessoa morreu.

Polícia apura 30 denúncias de mulheres contra cirurgião preso no Rio

Pelo menos 30 mulheres procuraram a Delegacia de Atendimento à Mulher em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, para denunciar por erro médico o cirurgião plástico equatoriano Bolívar Guerrero Silva, 63. Um dos casos investigados é uma morte inicialmente notificada como decorrente de Covid-19. Porém, suspeita-se que possa ter sido causada por uma falha do profissional. Silva está preso desde o dia 18 do mês passado. Ele é suspeito de manter uma paciente em cárcere privado em um hospital. Procurado, o advogado de defesa dele, Darlan Renato, não atendeu as ligações. A delegada Fernanda Fernandes confirmou que as denúncias foram feitas somente por mulheres atendidas pelo cirurgião. A mais recente foi feita nesta segunda (1º). A polícia também deve apurar se a morte de uma mulher teria relação com a atuação do médico. Fernandes não deu detalhes dos casos, que estão sob sigilo. Pacientes que procuraram a delegacia afirmaram que ficaram deformadas e com sequelas após terem sido operadas por Silva. Em 25 de julho, quando 20 pessoas já haviam buscado a polícia para denuncia-lo, a defesa do médico disse que não poderia comentar os casos que chegaram à delegacia porque ainda não tinha tido acesso aos relatos. A prisão do cirurgião ocorreu a partir do caso da paciente Daiana Chaves Cavalcanti, 36. Depois de realizar uma abdominoplastia em março, ela retornou outras duas vezes ao Hospital Santa Branca, do qual Silva é sócio, ao sentir dores no período pós-operatório. No início de julho, ela voltou a ser internada no hospital e permaneceu contra a própria vontade, segundo a família, porque Silva não a liberava. Enquanto isso, feridas não cicatrizadas foram se agravando, a ponto de necrosar. Cavalcanti foi resgatada pela polícia e transferida para o Hospital Federal de Bonsucesso, zona norte do Rio. O Hospital Santa Branca disse, em nota, que as alegações de Cavalcanti são “inverídicas”, que “jamais houve qualquer tentativa de mantê-la em nosso estabelecimento contra a sua vontade” e que “a paciente teve prestado pelo hospital todos os cuidados devidos”. A defesa de Cavalcanti entrou na Justiça com um pedido de reparação por danos morais no valor de R$ 200 mil contra o Hospital Santa Branca e contra Silva.