Cliente se recusa a medir temperatura e agride funcionário de hotel
As câmeras de segurança de um hotel em Varginha, no sul de Minas Gerais, flagraram uma briga ocorrida no último sábado entre um cliente de 30 anos e um recepcionista de 24. A Polícia Militar foi acionada pelo funcionário, que relatou que a confusão começou após o hóspede se recusar a medir a temperatura, medida de prevenção contra o novo coronavírus. As informações são do Estado de Minas. As imagens, que viralizaram após serem divulgadas na noite desta terça-feira, mostram que o homem discute com o atendente e, em seguida, anda em direção à porta. Segundos depois, ele volta e joga o pedestal de isolamento na direção do computador e do recepcionista. Em seguida, o hóspede arremessa também um frasco de álcool em gel no funcionário, que se defende com vários socos. Uma mulher aparece e leva o hóspede embora. “O homem contou que estava trabalhando quando o cliente chegou. Após o preenchimento do cadastro, ele teria se exaltado quando a vítima exigiu a aferição da temperatura em virtude da Covid-19. O jovem disse que desviou das agressões e, depois, o homem fugiu de carro”, diz um trecho do relato do recepcionista no registro de ocorrência. Ele acrescentou que, após ir embora, o hóspede ligou várias vezes para ameaçá-lo. Já o cliente alegou à polícia que, apesar de frequentador assíduo do estabelecimento, desconhece o recepcionista. “Ele teria sido tratado com grosseria pelo atendente, que ainda exigiu pagamento adiantado”, diz o RO. Em nota, o Via Garden Hotel lamentou o episódio. “Repudiamos o acontecido e lamentamos profundamente a agressão sofrida por nosso funcionário e informamos que estamos tomando as devidas providências cabíveis”, diz o texto. Nas redes sociais, os internautas vibraram pela reação do recepcionista. Varginha se tornou um dos assuntos mais comentados do Brasil no Twitter.
Moro será professor do curso de direito do Centro Universitário de Brasília
O ex-juiz Sergio Moro dará aulas no curso de direito do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília) a partir do dia 15 de setembro. As informações foram confirmadas pela assessoria dele ao UOL. O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) será responsável pelos cursos de Combate à Corrupção, Combate à Lavagem de Dinheiro e Estado de Direito. As aulas de Moro serão ministradas duas vezes por mês, de 15 em 15 dias. Até o fim da pandemia da covid-19, as aulas serão todas virtuais. Não será a primeira vez que Moro atuará como professor. O ex-juiz começou a lecionar em 1996, na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Já em 2018, ele virou professor titular da graduação e pós-graduação do Centro Universitário Curitiba. Após sair do governo federal, em abril, Moro afirmou via Twitter que ia descansar e começar a “procurar emprego”. Em junho, ele virou colunista da Crusoé, mas decidiu escrever de graça para a revista para não ter problemas com o TCU (Tribunal de Contas da União). Por outro lado, a Comissão de Ética da Presidência da República permitiu que o ex-juiz desse aulas no período de seis meses da sua saída do Executivo, mesmo que ele tenha direito a receber uma remuneração a posteriori. Nesse período, chamado de “quarentena”, integrantes da cúpula governista são proibidos de prestar serviços à iniciativa privada após sua demissão, exoneração ou aposentadoria em razão do seu conhecimento sobre informações privilegiadas.
Avó de Michelle Bolsonaro morre vítima de covid-19
Avó da primeira-dama Michelle Bolsonaro, Maria Aparecida Firmo Ferreira, 80, morreu na manhã desta quarta-feira (12). Ela estava internada há mais de um mês no Hospital Regional de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, para se tratar de covid-19. Maria Aparecida tinha deixado a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) na última sexta-feira (7), mas permaneceu internada na mencionada unidade para se tratar das complicações do coronavírus. A paciente chegou a ter 78% da capacidade pulmonar comprometida e usou máscara de oxigênio para obter mais conforto durante o tratamento. O Palácio do Planalto e a primeira-dama ainda não se manifestaram sobre o assunto. *Com informações da Band News FM, Jovem Pan e Jornal de Brasília
Trindade terá testagem em massa a partir de quinta (13)
A partir da próxima quinta-feira (13), Trindade dará início a um sistema de testagem em massa para detectar os casos de covid-19 no município. Expectativa é de que sejam realizados 180 testes diários em pacientes com sintomas da doença indicados pelo aplicativo “Dados do Bem”. Objetivo, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), é rastrear e monitorar pacientes infectados com coronavírus para diminuir as contaminações. Os interessados em realizar o teste do tipo RT-PCR terão de baixar o aplicativo disponível para Android e iOSe responder um questionário de autoavaliação, com respostas a perguntas sobre sintomas e quadro de saúde. Com base nas respostas, a ferramenta seleciona as pessoas com perfil de caso suspeito. Os pacientes selecionados receberão um QR Code no aparelho celular e devem comparecer a um dos pontos de coleta localizados na Feira Coberta, na região Central de Trindade, e na Subprefeitura, na região Leste, local em que haverá opção de drive-thru. Caso teste positivo, o paciente poderá indicar até cinco pessoas com quem teve contato para realizar o exame. Ainda de acordo com a Secretaria de Saúde do município, foi ofertada capacitação para todos os profissionais escalados para atuar na organização, triagem, acompanhamento, testagem e atividade administrativa. Também haverá distribuição de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para todos os envolvidos na ação. Dados do Bem Trindade é um dos 78 municípios selecionados pela Secretaria da Saúde (SES-GO) para ampliar a testagem por meio do aplicativo “Dados do Bem”. A iniciativa conta com a parceria da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Até a última semana, Goiânia e outras 13 cidades estavam aptas a realizar a testagem em massa: Americano do Brasil, Aragarças, Hidrolândia, Nova Crixás, Pirenópolis, Quirinópolis, Santo Antônio de Goiás, Vianópolis, Ceres, Rubiataba, Valparaíso, Bela Vista e Crixás. O aplicativo “Dados do Bem” está disponível gratuitamente nas lojas virtuais para Android e iOS. Depois de baixar a ferramenta, a população terá de fazer uma autoavaliação. Com base nas respostas ao questionário, o aplicativo fará uma triagem. A pessoa que se enquadrar nos critérios receberá um convite para fazer o exame RT-PCR.
Bolsonaro veta saque do FGTS a profissionais do setor aéreo durante pandemia
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vetou um dispositivo na medida provisória (MP) de socorro às empresas aéreas que permitiria a aeronautas e aeroviários sacarem mensalmente recursos das suas contas vinculadas ao Fundo Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). A possibilidade do saque, até o limite do saldo da conta do trabalhador, foi incluída na MP durante a tramitação no Congresso e valeria para os profissionais que tiveram os seus contratos suspensos ou salários reduzidos durante a pandemia do coronavírus. De acordo com a Secretaria-Geral da Presidência, se fosse avalizada por Bolsonaro a medida poderia levar a uma descapitalização do FGTS, “colocando em risco a sustentabilidade do próprio fundo”. Para o governo, isso prejudicaria “não só os novos investimentos a serem contratados em habitação popular, saneamento básico e infraestrutura urbana, mas também a continuidade daqueles já pactuados, trazendo impactos significativos nas diretrizes de políticas de desenvolvimento urbano.” O Planalto também alega que o pleito não foi atendido porque trata-se de benefício a um setor específico, não estendido a outros segmentos impactados pela Covid-19. A MP foi desenhada para apoiar companhias aéreas, que viram uma queda brusca em suas receitas por causa da redução de fluxo de viagens em decorrência da pandemia do novo coronavírus. Os trechos sancionados do texto permitem que concessionários paguem até 18 de dezembro as contribuições fixas e variáveis previstas em contratos com vencimento em 2020 —os valores serão corrigidos pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor). A redação também traz medidas para aliviar o caixa das companhias. A empresa aérea deverá fazer em 12 meses o reembolso de passagem aérea por cancelamento ocorrido entre 19 de março e 31 de dezembro. O valor deve ser corrigido pelo INPC. O consumidor terá a opção de receber crédito de valor maior ou igual ao da passagem, que será concedido até sete dias após a solicitação do passageiro. Ele poderá usá-lo ou transferi-lo para terceiros para compra de produtos ou serviços oferecidos pela aérea em até 18 meses a partir de recebimento do crédito. Quem desistir do voo no período de 19 de março a 31 de dezembro poderá escolher receber o reembolso, mas deverá pagar eventuais multas ou penalidades contratuais, dependendo da tarifa escolhida inicialmente. Também poderá obter crédito com valor correspondente ao da passagem, sem incidência de penalidades. A MP traz ainda ações de ajuda às concessionárias de aeroportos. Elas poderão, por exemplo, obter empréstimos garantidos pelo Fnac (Fundo Nacional de Aviação Civil) desde que comprovem ter sofrido prejuízo com a pandemia.
PF encontra R$ 90 mil em dinheiro na casa de Alexandre Baldy; vídeos
A Polícia Federal encontrou dinheiro vivo na residência do secretário de Transportes Metropolitanos de São Paulo, Alexandre Baldy (PP), em Brasília, nesta quinta-feira (6). O montante é de pelo menos R$ 90 mil e estava guardado em dois cofres. Vídeos mostram o momento da apreensão. As informações são da Revista Veja. A ação faz parte da Operação Dardanários, que apura desvios na Saúde no Rio de Janeiro e em São Paulo. São seis mandados de busca e apreensão cumpridos em Petrópolis, no Rio de Janeiro, na capital paulista, em São José do Rio Preto, Goiânia e Brasília expedidos pelo juiz Marcelo Bretas. Baldy foi preso pela Polícia Federal em casa, no Jardins, na Zona Oeste de São Paulo também nesta quinta (6).
Médico é preso por sacar arma em discussão por exame de covid-19 no Rio
A consulta de um paciente com sintomas do novo coronavírus terminou em discussão e virou caso de polícia na tarde desta quinta-feira, em um consultório localizado no Shopping Cittá América, na Barra da Tijuca, quando, durante o desentendimento, um médico pneumologista teria sacado uma arma de dentro de sua bolsa e ameaçado o cliente. O caso foi parar na 16ª DP (Barra da Tijuca). De acordo com os relatos do paciente, ele marcou uma consulta com o doutor Enio Studart para examinar o pulmão porque havia sido infectado com a Covid-19 há dois meses, mas os sintomas de cansaço continuavam. Foi quando, ainda segundo o homem, o pneumologista questionou a qualidade dos testes rápidos feitos por ele na ocasião. Teria iniciado, a partir dali, uma discussão, onde ambos teriam trocado ofensas. Foi nesse momento, ainda de acordo com o depoimento, que o médico pegou uma mochila, de onde sacou uma pistola para ameaçá-lo. O primeiro a chegar à delegacia foi o médico, contando ter tido um desentendimento com seu paciente, que chegou logo depois, acompanhado de policiais militares. Aos inspetores, Enio afirmou que o paciente, durante a consulta, não era claro em suas respostas, e que se aborreceu com as perguntas feitas por ele, começando a xingá-lo em seguida. O doutor também confirmou que possuía uma arma, mas que não havia a utilizado. Os agentes começaram a duvidar da versão do pneumologista, no entanto, quando questionaram de que forma ele teria se dirigido até a delegacia. Ele afirmou que havia pedido um serviço de carro por aplicativo, mas investigadores encontraram estacionado no pátio um automóvel com placa no nome dele. Foi neste momento que os policiais fizeram uma busca e encontraram dentro do veículo uma série de armas: um revólver calibre .38, uma pistola calibre .32, um soco inglês, duas facas, 24 munições de calibre .38, nove munições de calibre.32 e um carregador de pistola .32. Enio foi preso em flagrante pela equipe coordenada pela delegada Fernanda Noethen e irá responder pelos crimes de ameaça e porte ilegal de arma de fogo de uso permitido. Confira a nota oficial da Polícia Civil: “De acordo com a 16ª DP (Barra da Tijuca), o médico foi preso em flagrante por ameaçar um paciente e por porte ilegal de arma de fogo. Em seu veículo, foram encontrados um revólver, uma pistola, um soco inglês, duas facas, um carregador de pistola e munições”.
Retomada das viagens deve priorizar lugares nas vizinhanças
Deserto do Saara? Viajou. No momento, vamos de Jalapão (TO). A savana africana deve abrir espaço para o Pantanal e a Amazônia, assim como a Europa deve ceder a vez a Campos do Jordão, cidades históricas mineiras e serras gaúcha e catarinense. Foto da janelinha com vista lá do alto tende a baixar o foco e mirar paisagens captadas do banco de um automóvel. Isso porque, de cada 10 brasileiros de passagem, hospedagem ou pacote de viagem na mão, 8 vão embarcar rumo ao Brasil pelo menos até o Réveillon, mostra estudo da Braztoa, associação das operadoras de turismo (69% delas já retomaram as vendas). “Por ora, até mesmo os brasileiros acostumados com viagens internacionais vão optar por lugares no Brasil”, afirma Roberto Nedelciu, 59, presidente da entidade, que representa 90% das viagens de lazer comercializadas no país. “Temos procura por países da Europa e Ásia e também pelos EUA, destinos que apresentam preços entre 40% e 60% mais em conta, porém, com embarque previsto somente para 2021”, diz ele. Dona da Aromas da Montanha, pousada de charme em Tiradentes (MG), a agrônoma Rosana Negreiros, 60, explica que é preciso aprender como os outros países retomaram o turismo. Ela vislumbra um retorno pautado em mudança de hábitos. O bufê de café da manhã, por exemplo, deixa de existir. Será servido no quarto do hóspede ou em espaços que garantam o distanciamento social. O uso de máscaras para o staff e clientes já faz parte da paisagem. Por causa da pandemia, ela se mudou para a pousada com o marido, Mozart Alemão, 60. Trouxe a mãe dela, Leonilda, 89, para viver com eles. O casal defende mudança de atitude, sobretudo, dos turistas e de empresários do setor. Eventos como o encontro gastronômico e o de motoqueiros, dois dos principais festejos do calendário tiradentino, devem ser reduzidos para uma versão “intimista, em sintonia com o clima pacato do município”, diz Alemão. Uma das cidades históricas mais bem preservadas do país, Tiradentes tem cerca de 8.000 habitantes. Com pouca gente transitando por suas ruas de pedra do século 18, elas ganharam uma fina grama parecida com “um tapete verde”, descreve Rosana. “É claro que pessoas fazem falta, mas, quando voltarem, terão que apreciar o silêncio e respeitar a história e a natureza locais”, diz a agrônoma. “O turismo de massa acabou.” Para Magda Nassar, 57, presidente da Abav Nacional, associação que congrega 2.400 agências de viagens por todo o país, os passos para a retomada precisam ser cautelosos, porque não se sabe se o destino procurado hoje estará aberto ao turismo amanhã. O retorno se dará por lugares no entorno do viajante. “Agora é o momento de o Brasil se mostrar protagonista.” Neste instante de readequação, hotéis com limitação de hóspedes, sistema de alimentação e lazer controlado para um número menor de pessoas e atrações ao ar livre estão no catálogo da CVC, maior agência e operadora do país, que antes da pandemia de Covid-19 levava mais de 20 mil pessoas por dia para viajar. Por enquanto, a empresa prevê que a retomada será gradual, a partir deste mês. “Neste primeiro momento, os clientes tendem a preferir viagens próximas às suas residências”, avalia Leonel Andrade, presidente da CVC Corp. Serra gaúcha, Nordeste, interior paulista e cidades históricas mineiras, assim como roteiros de luxo e charme, que exigem limitação de visitantes, podem ganhar preferência. O carro deve largar na frente como principal meio de transporte desta retomada. Nascido e criado à beira-mar, o guia Júnior Tubarão, 30, fazia do barco seu instrumento de trabalho. Com a chegada do vírus, o turismo secou. Hoje, ele sobrevive com o auxílio de R$ 600 e da pesca. Segue, contudo, conectado à natureza de Galinhos, uma praia ainda intocada no norte do Rio Grande do Norte, onde carro não entra. O braço de mar Aratuá, nome dado em homenagem aos aratus, caranguejos presentes ali em abundância, era o “escritório” de Tubarão, que servia de cenário para os passeios com tour gastronômico. Dia desses, uma espécie rara pousou ali, a gaivota-bico-de-tesoura, conhecida como talha-mar. Ao mergulhar nas águas do Aratuá, o guia se deparou com uma outra surpresa: o fundo estava apinhado de cavalos-marinhos. “As abelhas também voltaram. O turista? A gente espera”, brinca. E, quando voltar, precisa pisar ali com outro comportamento, avalia Daniel Barbosa, 33, guia de Maceió há dez anos. “As pessoas vão se desligar do celular e se conectar com as belezas da natureza, respeitando-as. Sem muvuca.” Antes do sumiço dos visitantes, ele chegava a trabalhar com 300 turistas por semana. Em tempos de paralisia, usa o tempo livre para aulas de inglês, espanhol e guitarra. Barbosa afirma não ter procurado ajuda do governo. “Muita gente carente precisa bem mais desses R$ 600.” Sem renda, sacando as economias da poupança e vivendo com o auxílio do governo e de doações de cesta básica, Romildo Carlos Lopes, 54, guia há mais de 20 anos em Fernando de Noronha, lugar onde todo o mundo o conhece como Lombra, explica que a retomada deve ocorrer com preços menores na ilha. Reconhece que os valores praticados ali costumavam assustar os visitantes. “Agora, não tem turista e ninguém tem dinheiro pra nada. Vai ter que baixar.” Independentemente da máscara de proteção de uso obrigatório, uma coisa é certa: por mais higienizada que a peça de snorkel esteja, muitos vão preferir levar a sua quando saírem para mergulhar nas águas translúcidas do arquipélago pernambucano.
Pressão por gastos põe em risco teto, dívida pública, inflação e juro baixo
Os gastos extraordinários e a necessidade de ampliar a rede de proteção social no pós-pandemia da Covid-19 podem tornar inevitável o aumento da carga tributária, mesmo que temporário, para evitar que a dívida pública saia do controle, demolindo o atual cenário de inflação e juros baixos no Brasil. Segundo especialistas, diante da pressão por novas despesas, o país deveria concentrar-se em duas frentes: 1) evitar que a dívida pública dispare novamente; e 2) respeitar o teto de gastos do setor público, mecanismo aprovado em 2016 que limita a despesa ao orçamento do ano anterior, corrigido pela inflação. Sem essas premissas, o temor é que o país perca a atual janela de oportunidade de juros e inflação baixos —e de enorme liquidez internacional— para recolocar as contas públicas em uma trajetória de equilíbrio. Neste ano, o endividamento bruto brasileiro dará um salto de 20 pontos percentuais, chegando a quase 96% em relação ao tamanho do PIB (Produto Interno Bruto). Mesmo se o teto de gastos puder ser cumprido, a dívida pública encostará em 100% do PIB nos próximos anos, deixando para trás a expectativa de queda que havia até o início da pandemia. Praticamente todas as economias terminarão 2020 mais endividadas, entre 15 e 25 pontos, elevando a chamada relação dívida/PIB —o principal indicador de solvência de um país. O Brasil tem, disparado, o maior endividamento entre os emergentes, assim como uma das maiores cargas tributárias, equivalente a 33% do PIB. Mas também é um dos poucos países em desenvolvimento com sistemas universais de saúde e educação, que justificariam uma dose maior de tributos. Nos Estados Unidos e em alguns países europeus, a relação entre dívida e PIB já supera 100%. Mas como eles são países de renda elevada e têm moedas (dólar e euro) consideradas reserva de valor, conseguem financiar o endividamento sem maiores dificuldades. O Tesouro dos EUA, por exemplo, emite títulos com prazo de vencimento de dez anos para financiar a dívida federal pagando juros entre 0,5% e 0,7% ao ano. Na Europa, a taxa na Alemanha e na França chega a ser negativa: em troca de segurança, investidores perdem dinheiro aplicando nesses papéis. No Brasil, no entanto, o Tesouro é obrigado a pagar juros de até 7,2% ao ano para convencer investidores a financiarem o governo —e a pressão por juros maiores tende a crescer quanto mais endividado estiver o setor público. “É óbvio que uma relação dívida PIB de 96% é ruim. Mas trata-se de uma situação excepcional em todo o mundo. O principal neste momento é garantir que a dívida não sairá do controle, e para isso o teto de gastos é fundamental no sentido de ancorar as expectativas”, afirma o economista da PUC-Rio José Márcio Camargo. Essa “ancoragem” de expectativas seria responsável, por exemplo, por manter a taxa de juro básica no Brasil em seu menor patamar (apesar da dívida em alta) e o chamado risco-país em um nível também historicamente baixo. Mas o dólar acima de R$ 5 diante de reservas cambiais confortáveis (de US$ 340 bilhões) seria um sinal de que muitos investidores desconfiam da capacidade de o Brasil pagar sua dívida, e estão se protegendo em moeda forte. Para o economista Samuel Pessôa, da Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) e colunista da Folha, o Brasil terá um “vento de cauda” favorável por um período ainda longo à frente advindo das taxas de juro internacionais muito baixas e da enorme liquidez que os bancos centrais vêm injetando no mercado global. Isso, mais a elevada ociosidade na economia brasileira, com folga para produzir em vários setores, proporcionaria tempo ao país para adotar medidas que freassem a trajetória de crescimento da dívida. “Numa situação emergencial, um aumento da carga tributária, mesmo que temporário, talvez seja adequado”, diz Pessôa. Uma alternativa, segundo ele, seria criar um imposto transitório sobre a gasolina enquanto o país se reorganiza no pós-pandemia e retoma a agenda de reformas —sobretudo para limitar o aumento de gastos com o funcionalismo, a segunda maior despesa depois da Previdência. “Toda a ideia do teto de gastos é incompatível com o modo como tratamos a questão do funcionalismo, assim como foi com o sistema previdenciário até antes da reforma”, diz. Para o economista Manoel Pires, da FGV Ibre, um aumento da carga tributária pode ser imprescindível para reverter a trajetória da dívida. “Se já achava complicado manter o ajuste fiscal antes da pandemia, isso tornou-se mais difícil agora.” Estimativas do Ministério da Economia indicam um déficit primário (sem contar a rolagem da dívida) superior a R$ 800 bilhões neste ano. Os gastos extras, mais a recessão em curso, é que elevarão o endividamento em 20 pontos, para cerca de 96% do PIB. Outra maneira de diminuir a relação ente dívida e PIB é aumentar o tamanho da economia, que serve de denominador para o cálculo. Se o PIB cresce mais do que a dívida, a relação cai. O problema, segundo Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, é que o Brasil já vinha crescendo muito pouco, ao redor de 1% ao ano, apesar de uma série de reformas aprovadas durante o governo Michel Temer. Vale considera o teto de gastos “mal desenhado”, pois não levaria em conta os altos e baixos típicos de economias emergentes. Mesmo assim, acha que se o Brasil desrespeitá-lo agora, em meio ao aumento do endividamento, arruinará as expectativas macroeconômicas. “Isso é coisa para ser feita por um novo governo, em um momento de estabilização, não de crise.” Segundo o economista Bráulio Borges, da FGV Ibre, uma das vantagens do perfil atual da dívida pública é que a maior parte dela é corrigida por taxas de juro pós-fixadas e pela inflação (ver quadro). Em um cenário de juros e evolução de preços historicamente baixos como o de agora, o aumento do endividamento tende a ter efeito limitado —a não ser que haja uma mudança repentina das expectativas em relação à sustentabilidade das contas públicas. Alguns economistas argumentam que dificilmente a inflação subiria diante de um quadro de forte desaquecimento e elevado desemprego, como o que o país está
Com pandemia, total de leitos de internação no SUS volta a crescer após 10 anos
A busca emergencial por maior estrutura na rede de saúde devido à pandemia do novo coronavírus interrompeu, pela primeira vez, uma queda que vinha ocorrendo nos últimos dez anos no total de leitos de internação existentes no SUS. Dados de um levantamento feito pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) mostram que, entre fevereiro e junho deste ano, foram abertos 22.810 leitos de internação na rede pública. Com isso, o total passou de cerca de 294 mil a 317 mil. Até então, o Brasil vinha registrando a cada ano uma queda no número desses leitos. Entre janeiro de 2011 e janeiro de 2020, por exemplo, 41 mil deles haviam sido fechados. A inversão da curva também fica visível ao observar dados dos primeiros seis meses de 2019 e de período semelhante de anos anteriores —os quais também apontavam queda até então. Segundo o CFM, todos os 22.810 leitos extras abertos neste ano são de clínica geral, o que indica que podem estar relacionados à epidemia da Covid-19 no país. O balanço não engloba o total de leitos de UTI, que também tiveram aumento no período. Até agora, ao menos 11.084 foram habilitados e passaram a ser financiados para uso na rede, de acordo com o Ministério da Saúde. Para Hideraldo Cabeça, 1º secretário do CFM, ao trazer nova carga ao sistema, a Covid-19 também evidenciou parte do deficit de estrutura que existia na rede. “Já sabíamos dessa deficiência, o que está ligado também à fila de espera por leitos e de procedimentos eletivos. A pandemia veio deixar essa dificuldade existente na saúde de fácil percepção.” O conselho alerta, porém, para o risco de nova queda no total de leitos em breve. Isso ocorre porque, além de uma expansão de leitos em unidades fixas da rede, a epidemia estimulou a abertura de hospitais de campanha, tidos como provisórios —não há dados de quanto eles representam do total. “A nossa preocupação é que muitos desses leitos estão em locais onde não é possível mantê-los, como hospitais em ginásios, campos de futebol e centros de convenções”, afirma. Para Cabeça, é preciso avaliar agora a possibilidade de absorver os leitos onde a expansão ocorreu dentro ou próxima de infraestrutura existente. O debate de qual deve ser o destino da nova estrutura criada em meio à pandemia tem ganhado força nos últimos dias, em meio aos primeiros sinais de uma possível queda no total de novos casos em algumas regiões. Para Gulnar Azevedo, professora de epidemiologia da UERJ, ainda é cedo para fechar leitos, mesmo que provisórios, já que há risco de novas infecções. “Ainda estamos em pandemia, que não acabou. Em alguns lugares, vemos uma atenuação do crescimento, de uma curva que tende a estabilizar, mas ainda não podemos dizer que está sob controle”, afirma Azevedo, que também é presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva). Ela sugere que parte dos leitos em locais onde há os primeiros sinais de queda de novos casos da Covid seja usada para garantir o atendimento de pacientes após a saída da UTI e daqueles com quadros menos graves, mas que não têm condições adequadas de isolamento em casa e também precisam de monitoramento e cuidados intermediários. Ou, ainda, que haja um plano para que a estrutura seja atrelada ao atendimento de pacientes vindos de cidades do interior —dos 22.810 novos leitos, 9.762 estão em capitais. Para Cabeça, o ideal é que haja um esforço para que parte dos leitos seja incorporada no pós-pandemia de acordo com o gargalo de cada região. Ele cita dados que mostram que, nos últimos anos, áreas como obstetrícia e cirurgia geral tiveram maior perda de leitos. Outra necessidade é preparar a rede para atendimento de demandas que ficaram represadas em meio à epidemia da Covid-19, caso de cirurgias eletivas, por exemplo. À Folha, secretários estaduais de saúde confirmam a intenção de manter parte dos leitos abertos, mas apontam o financiamento dessa estrutura como desafio. “Há uma discussão sobre como construir um legado após a pandemia para o sistema de saúde, mas o financiamento é sempre um problema”, afirma o secretário de saúde do Maranhão e presidente do Conass, conselho que reúne gestores estaduais de saúde, Carlos Lula. “Cito o exemplo do meu estado. Abrimos 13 hospitais de março até agora. Desses, oito ficarão de maneira permanente pra nossa rede. Mas manter isso em pé será um desafio”, aponta ele, que diz analisar agora como manter o financiamento. O tema deve ser discutido em reunião com os 27 secretários estaduais de saúde nesta semana. A preocupação com o financiamento é compartilhada por gestores municipais. Segundo Mauro Junqueira, do Conasems (conselho de secretários municipais de saúde), é cedo para saber se os leitos devem ser mantidos. “Não adianta ter o leito e ele estar ocioso, porque isso tem custo. Mas obviamente em algumas regiões vai ficar como legado um aumento, e esperamos que tenhamos equipes e recursos para manter tudo isso.” Dados do levantamento feito pelo CFM mostram São Paulo, Pernambuco e Minas Gerais como os estados que abriram a maior quantidade de leitos em números absolutos. Já em proporção à população, o maior aumento foi em Roraima, Sergipe e Amapá. Só em São Paulo, foram criados 5.000 leitos de enfermaria. Também foram abertos outros 4.500 de terapia intensiva, de acordo com a secretaria estadual de saúde. Destes últimos, apenas 2.500 foram habilitados pelo ministério. Os demais ainda aguardam resposta, diz a pasta, que reforça o pedido por “apoio no custeio da assistência”. Questionada sobre a possibilidade de manter os novos leitos após a pandemia, a secretaria não respondeu. Diz apenas que “mantém o compromisso de garantir assistência e aprimorar a rede, com base em critérios técnicos e nas necessidades da população.” Em nota, o Ministério da Saúde informou que, diante da pandemia por Covid-19, habilitou 11.084 leitos de UTI, com investimento de R$ 1,5 bilhão. A pasta não informou o total de leitos de internação clínicos abertos no período. Sobre os planos de absorção dos novos leitos, o ministério afirma que a manutenção será discutida com gestores
